Nota: Essa invasão dos últimos momentos da vida de Páris - o "vilão" da Guerra de Tróia, "raptor" de Helena - não tem fim e provavelmente não terá. Estou postando só porque faz muito tempo que não posto e eu sinceramente gosto da minha invasão na mente de Páris. Eu me pergunto se conseguiria invadir a mente de outra pessoa?
(Ah, em outras palavras, isso sou eu brincando de mitologia grega. Provavelmente, errei em todos os fatos - mas aí posso brincar de culpar a Wikipedia ;)
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Alguns amores nascem condenados.
I
O tempo havia parado, como se o titã Cronus houvesse ressurgido das profundezas do Tártaro só para zombar de sua tragédia. Ele podia ver a flecha vindo em sua direção, a ponta destinada ao seu coração, e lhe ocorreu como era irônico. Morto por uma flechada – justo ele, o melhor arqueiro de Tróia! Quantas almas ele já não mandara para o Mundo Inferior, sem nunca desperdiçar uma flecha mesmo após horas de batalha? E não fora ele o herói que vingara a morte de seu irmão – Heitor, sempre tão corajoso e adorado! -, acertando a certeira flecha em Aquiles – o tão famoso Aquiles! - com a ajuda de Apolo? Deveriam compor odes sobre sua vitória, deveriam lhe honras mais que a todos os irmãos quando a guerra acabasse.
Agora, ele sabia que não veria o final da guerra. E quando a flecha se aproximou mais – sempre sem pressa para completar sua trajetória, tal qual a víbora que circunda o redor de sua presa, sábia de que o veneno fará efeito eventualmente -, Páris pensou em como tudo começara. Afrodite. Fora tudo culpa dela. Ela lhe oferecera o que ele mais cobiçava...
Mas, poderia ele realmente a culpar? Haviam requisitado sua presença apenas para resolver uma disputa entre as deusas – quem seria a mais bela? Ah, pergunta injusta! Haviam-no apresentado as três mais belas mulheres – não, eram criaturas tão perfeitas que certamente estavam acima de qualquer outra mortal. Ele soubera, naquele instante, que nunca haveria de cair de amores por nenhuma mulher a partir de então – como poderia encontrar beleza que se comparasse às três deusas que lhe eram apresentadas?
E então elas haviam tentado-o. Como se já não fosse tão impossível escolher dentre elas! Poder, Hera lhe sussurrara, sua voz protetora embalando-o em sonhos de ter toda a Grécia aos seus pés – e ela estaria ao seu lado enquanto contemplavam a extensão de seu reino, a deusa protetora da família. Coragem, sabedoria e habilidade, Atena declarara, seu rosto sério se quebrando em um sorriso irresistível – venha para mim, ela poderia estar dizendo, e será o maior de todos os guerreiros que já existiu; seu nome nunca cairá no esquecimento, e eu sempre o lembrarei.
E havia Afrodite. Ela ficara quieta enquanto suas parentas ofereciam-lhe as melhores visões que Páris havia tido em toda sua vida. Ele a fitara, curioso para saber como ela poderia lhe ofertar algo melhor - e lhe ocorreu que Afrodite talvez fosse a mais linda, realmente, dentre as três. Não havia nela a beleza confortante e altiva de Hera, a rainha do Olimpo, e não havia nela a beleza crua de Atena, a deusa da sabedoria, obviamente mais preocupada com a guerra – e, no entanto, ambas as deusas queriam ter sua beleza reconhecida, queriam ser a mais bela. Ele pensou, por um instante, que talvez elas só quisessem vencer Afrodite.
Porque ele a teria escolhido se as deusas não houvessem lhe feito ofertas tão tentadoras. Afrodite não tinha um ar de beleza sobre si – ela era a própria beleza. Tudo em seu rosto, cada detalhe, lhe inspirava feminilidade – ela poderia lutar, como Atena, se precisasse, e poderia ser uma mãe, como Hera, e Páris apostaria que ela nunca teria um fio de cabelo desarrumado, um sorriso menos brilhante na face, um olhar menos sensual.
Ele queria tocá-la – mas não podia. Páris não era tolo – as deusas escolhiam os mortais a que amavam, e se nenhuma lhe aparecera antes, então ele estava condenado a não tê-las. E tantos outros mortais haviam se perdido por meros sonhos – ele não se arriscaria.
Pela primeira vez desde que contemplara as deusas, Páris desviou o olhar, decidido a não cobiçar o que jamais teria.
Amor, Afrodite sussurrara de repente, sua voz fina ecoando na clareira em que estavam. Escolha-me, e terá o amor da mais bela do mundo. Será sua aquela mortal a que protejo, aquela cuja beleza se equipara às deusas, porque assim a permitimos. Escolha-me, Páris, e você terá minha benção e o coração de Helena.
Ah, como resistir a palavras tão doces! Ali estava o que ele mais desejara desde que fitara as deusas – tê-las para si, amá-las com todas as suas forças! Mas fora-lhe proibido. Não as toque, Hermes lhe avisara, e ele não era estúpido – não iria desagradar a Zeus, e menos às deusas – mas ali estava um meio para conseguir o que tanto desejava. Se não podia ter a divindade, teria a humana que rivalizava em beleza com as deusas - amá-la-ia até o final de seus dias, não importasse o custo. Poder, sabedoria – nada se comparava ao destino que via a sua frente. Que maldição teria em escolher o amor da mais bela?
O sorriso de Afrodite, quando a declarou a mais digna do Pomo, foi como uma manhã de sol – puro, belo, simples.
Ocorreu a Páris, pela primeira vez, com a flecha a cinco passos de distância, que ele nunca reparara nas tempestades que haviam se formado com a partida de Hera e Atena, obviamente insatisfeitas. (...)
