2010/09/12

Alguns amores nascem condenados: Páris e Helena

Nota: Essa invasão dos últimos momentos da vida de Páris - o "vilão" da Guerra de Tróia, "raptor" de Helena - não tem fim e provavelmente não terá. Estou postando só porque faz muito tempo que não posto e eu sinceramente gosto da minha invasão na mente de Páris. Eu me pergunto se conseguiria invadir a mente de outra pessoa?

(Ah, em outras palavras, isso sou eu brincando de mitologia grega. Provavelmente, errei em todos os fatos - mas aí posso brincar de culpar a Wikipedia ;)

---

Alguns amores nascem condenados.

I

O tempo havia parado, como se o titã Cronus houvesse ressurgido das profundezas do Tártaro só para zombar de sua tragédia. Ele podia ver a flecha vindo em sua direção, a ponta destinada ao seu coração, e lhe ocorreu como era irônico. Morto por uma flechada – justo ele, o melhor arqueiro de Tróia! Quantas almas ele já não mandara para o Mundo Inferior, sem nunca desperdiçar uma flecha mesmo após horas de batalha? E não fora ele o herói que vingara a morte de seu irmão – Heitor, sempre tão corajoso e adorado! -, acertando a certeira flecha em Aquiles – o tão famoso Aquiles! - com a ajuda de Apolo? Deveriam compor odes sobre sua vitória, deveriam lhe honras mais que a todos os irmãos quando a guerra acabasse.

Agora, ele sabia que não veria o final da guerra. E quando a flecha se aproximou mais – sempre sem pressa para completar sua trajetória, tal qual a víbora que circunda o redor de sua presa, sábia de que o veneno fará efeito eventualmente -, Páris pensou em como tudo começara. Afrodite. Fora tudo culpa dela. Ela lhe oferecera o que ele mais cobiçava...

Mas, poderia ele realmente a culpar? Haviam requisitado sua presença apenas para resolver uma disputa entre as deusas – quem seria a mais bela? Ah, pergunta injusta! Haviam-no apresentado as três mais belas mulheres – não, eram criaturas tão perfeitas que certamente estavam acima de qualquer outra mortal. Ele soubera, naquele instante, que nunca haveria de cair de amores por nenhuma mulher a partir de então – como poderia encontrar beleza que se comparasse às três deusas que lhe eram apresentadas?

E então elas haviam tentado-o. Como se já não fosse tão impossível escolher dentre elas! Poder, Hera lhe sussurrara, sua voz protetora embalando-o em sonhos de ter toda a Grécia aos seus pés – e ela estaria ao seu lado enquanto contemplavam a extensão de seu reino, a deusa protetora da família. Coragem, sabedoria e habilidade, Atena declarara, seu rosto sério se quebrando em um sorriso irresistível – venha para mim, ela poderia estar dizendo, e será o maior de todos os guerreiros que já existiu; seu nome nunca cairá no esquecimento, e eu sempre o lembrarei.

E havia Afrodite. Ela ficara quieta enquanto suas parentas ofereciam-lhe as melhores visões que Páris havia tido em toda sua vida. Ele a fitara, curioso para saber como ela poderia lhe ofertar algo melhor - e lhe ocorreu que Afrodite talvez fosse a mais linda, realmente, dentre as três. Não havia nela a beleza confortante e altiva de Hera, a rainha do Olimpo, e não havia nela a beleza crua de Atena, a deusa da sabedoria, obviamente mais preocupada com a guerra – e, no entanto, ambas as deusas queriam ter sua beleza reconhecida, queriam ser a mais bela. Ele pensou, por um instante, que talvez elas só quisessem vencer Afrodite.

Porque ele a teria escolhido se as deusas não houvessem lhe feito ofertas tão tentadoras. Afrodite não tinha um ar de beleza sobre si – ela era a própria beleza. Tudo em seu rosto, cada detalhe, lhe inspirava feminilidade – ela poderia lutar, como Atena, se precisasse, e poderia ser uma mãe, como Hera, e Páris apostaria que ela nunca teria um fio de cabelo desarrumado, um sorriso menos brilhante na face, um olhar menos sensual.

Ele queria tocá-la – mas não podia. Páris não era tolo – as deusas escolhiam os mortais a que amavam, e se nenhuma lhe aparecera antes, então ele estava condenado a não tê-las. E tantos outros mortais haviam se perdido por meros sonhos – ele não se arriscaria.

Pela primeira vez desde que contemplara as deusas, Páris desviou o olhar, decidido a não cobiçar o que jamais teria.

Amor, Afrodite sussurrara de repente, sua voz fina ecoando na clareira em que estavam. Escolha-me, e terá o amor da mais bela do mundo. Será sua aquela mortal a que protejo, aquela cuja beleza se equipara às deusas, porque assim a permitimos. Escolha-me, Páris, e você terá minha benção e o coração de Helena.

Ah, como resistir a palavras tão doces! Ali estava o que ele mais desejara desde que fitara as deusas – tê-las para si, amá-las com todas as suas forças! Mas fora-lhe proibido. Não as toque, Hermes lhe avisara, e ele não era estúpido – não iria desagradar a Zeus, e menos às deusas – mas ali estava um meio para conseguir o que tanto desejava. Se não podia ter a divindade, teria a humana que rivalizava em beleza com as deusas - amá-la-ia até o final de seus dias, não importasse o custo. Poder, sabedoria – nada se comparava ao destino que via a sua frente. Que maldição teria em escolher o amor da mais bela?

O sorriso de Afrodite, quando a declarou a mais digna do Pomo, foi como uma manhã de sol – puro, belo, simples.

Ocorreu a Páris, pela primeira vez, com a flecha a cinco passos de distância, que ele nunca reparara nas tempestades que haviam se formado com a partida de Hera e Atena, obviamente insatisfeitas. (...)

2010/05/05

TEMA: A verdade sobre o aquele aluno novo da escola.

(i.n.s.i.r.a.o.t.í.t.u.l.o.)

“Você é um vampiro”.

A frase fora dita com convicção. Ele se virou, pestanejando.

“Como?”

“Vampiro”, ela repetiu. “Você aparece do nada, tenta se afastar das pessoas...”

“Não sou muito bom nisso”, ele retorquiu, e, quando seus olhares se encontraram, ela corou. Isso era verdade, porque eles haviam passado a maior parte das últimas semanas juntos. “E talvez você seja apenas distraída, e nunca me veja chegando”.

O rubor no rosto dela aumentou. Ela sempre o procurava em meio à multidão - como podia não notá-lo? Desde o primeiro dia, ele se destacara entre os alunos novos: alto, cabelos negros, olhos azuis como o céu. E uma tendência a ser reservado e quieto, o que só aumentava a curiosidade em torno de sua figura.

Exceto quando estava com ela; começara com um trabalho em dupla e, de repente, a apresentação já fora feita e, ainda assim, eles passavam as tardes conversando na varanda da casa dela.

“Eu ando no sol”, ele acrescentou, parecendo se divertir agora.

“Hoje em dia, todos os vampiros têm anéis mágicos ou brilham ou...”

“Não tenho alergia a alho, não me transformo em morcego e...”, ele retirou de dentro da blusa um pequeno crucifixo que usava. “Também não me importo com cruz”. E, então, em uma voz muito mais suave, acrescentou: “Era da minha mãe. Ela morreu pouco antes de eu me mudar para cá”.

Ela piscou.

“Foi por isso que você saiu da capital?”

Ele desviou o olhar.

“Eu e meu pai precisávamos sair do lugar que nos trazia lembranças demais dela. Nós queríamos um recomeço, e encontramos aqui”.

Ele suspirou e um silêncio se abateu sobre eles. Depois de alguns instantes, ele voltou a fitá-la, a testa franzida.

“Você estava falando sério sobre achar que eu era um vampiro?”, perguntou; ela mordeu os lábios e, vermelha, acenou. “Então só andou comigo nos últimos dias porque achou que eu era uma criatura mitológica? Pensou que teria uma aventura igual a dos livros? Ou quis ser transformada em uma criatura da noite?”

O choque se agitou dentro dela.

“Claro que não”, murmurou, ainda mais convicta. “Se fosse você um, eu iria lhe dizer que não me importo. Eu... Me importo com você”.

“Mesmo tendo perdido toda a graça? Você descobriu agora o meu segredo: sou uma pessoa igual a todo mundo”.

“Não para mim”, ela sussurrou. “Você me faz feliz à tarde, é minha razão para ir à escola e... Está nos meus sonhos à noite. Então, de certa fora, você é uma criatura mística para mim”.

Ele se aproximou.

“Mas não um vampiro”, murmurou, erguendo a mão e colocando uma mecha do cabelo ruivo dela atrás da orelha. “E até posso provar”.

Segurou a mão dela e a levou até seu próprio peito. Naquele instante, nada mais importava – ela só podia sentir o batimento do coração dele.

“Vampiros estão mortos. E meu coração bate bem rápido e vivo quando estou com você”.

Ela sorriu.

“O meu também”, sussurrou e pousou seus lábios sobre os dele.


Vou confessar que foi irresistível zombar do tema ;)

2010/04/18

Lady Laura

Nota: Eu nunca ouvi a música do Roberto Carlos sobre sua mãe. E critico um pouco a mídia por dar tanta ênfase no falecimento dela - não porque ela não mereça, mas porque tantas mães morrem e tantos filhos ficam órfãos.

A morte é lamentável. E natural. E, como eu li em um livro, a morte é o fim de uma canção, mas não o de todas, e sempre há o começo de uma canção em algum lugar.

Outra nota: Eu não consegui reler isso para poder corrigir qualquer erro de português. Se alguém ler, notar, e quiser me apontar, só comentar.

---------------------------------

Lady Laura


- Eu não quero te deixar - eu disse, em uma voz cansada, fitando o rosto dela. Minha mãe sorriu para mim, daquele jeito condescendente que fez eu me sentir uma garotinha de cinco anos, correndo até ela com medo dos trovões.

- Estou bem – ela garantiu, encostando-se aos travesseiros fofos atrás dela; com o movimento, sua nova cicatriz no abdome ficou à mostra. Tentei evitar o arrepio ao me lembrar daquelas quinze horas intermináveis de cirurgia. – Você deveria sair um pouco.

Como se fosse um sinal, o meu celular em cima da mesa-de-cabeceira dela tocou uma vez. Nova mensagem.

- Gabriel – falei, e aquilo já era uma espécie de explicação, porque o sorriso de minha mãe só aumentou.

- Que horas ele marcou de encontrar com você?

- Duas – respondi distraidamente, meus dedos praticados já voando pelo teclado. – Vou dizer a ele que não vou...

Com um movimento muito mais ágil do que se esperaria de uma senhora de 47 anos que acabara de sair de uma cirurgia, minha mãe se levantou e tomou o celular de mim.

- O que está fazendo? – perguntei, confusa, enquanto a via digitar uma mensagem.

- Estou dizendo a ele que você vai sair daqui e vai encontrá-lo – ela respondeu firmemente. – Você já ficou tempo demais comigo.

- Não é verdade... – tentei, em uma voz tímida que sumiu quando nossos olhares se encontraram. Eu não queria deixá-la. Desde que meu pai falecera logo na minha infância, minha mãe era tudo que eu tinha – ela era família em todo o sentido da palavra. Ela era aquela me ensinara a dirigir, ou me levava para passear na praia quando eu havia brigado com uma amiga, ou podia passar horas me ouvindo falar dos garotos que eu gostara – insistindo, sempre, que eu deveria abrir os olhos para Gabriel.

Porém, eu estava cansada – absurdamente exausta; não pregara o olho a noite inteira, esperando minha mãe voltar da cirurgia – que havia demorado mais tempo do que o médico previra. Além disso, havia aquela sensação de opressão no peito. Fora quase insuportável a espera, sozinha, naquele quarto fechado do décimo nono andar do hospital – eu quase chegara a ligar para Gabriel lá para as quatro da manhã, mas hesitara – não porque eu achasse que ele fosse ficar irritado, mas porque eu sabia, apenas sabia, que aquele aperto não passaria até que eu a visse sã e salva.

Não que eu tivesse acertado totalmente – minha mãe aparecera às oito horas da manhã, sonolenta, mas risonha, e eu havia respirado verdadeiramente pela primeira vez em horas. Mas havia aquela sombra me perseguindo, sempre à espreita – lembrava-me aqueles instantes antes da chuva, quando se sentia o cheiro da terra e a pressão no ar, e via-se o cinza no céu mais escuro que nunca – e então simplesmente sabia-se que ia chover.

Como se para zombar de mim, um trovão ecoou lá fora.

- Vá antes que chova – minha mãe recomendou. Olhei-a com ternura. Ela sempre tentava me proteger de tudo e, ao mesmo tempo, insistia que eu deveria ter aventuras. Imaginei como deveria ser complicado ser uma mãe – estar sempre dividida entre o medo de que algo aconteça e o medo de que algo não aconteça. Não era fácil a vida dela, e não devia ter sido nem um pouco nos últimos anos. Mas ali ela estava, se recuperando da cirurgia, um sorriso no seu rosto que me lembrava aqueles que ela desenhava no rosto do sol.

Acenei, suspirando, e fui até ela. Acariciei os cabelos claros – mas não brancos, ela se orgulhava – e a beijei na testa.

- Eu te amo, mãe - murmurei. – Volto logo.

- Eu te amo – ela respondeu, fechando os olhos e voltando a se apoiar nos travesseiros. Olhei-a antes de fechar a porta de seu quarto. – Vai ficar tudo bem – ela prometeu, calma, como se soubesse que eu a fitava, como se soubesse que aquela pressão no meu peito não se fora.

Estava ventando e o sol estava escondido atrás das nuvens acinzentadas. Apertei meu casaco contra o corpo e me encaminhei para o parque que era, de certo modo, o meu lugar com Gabriel. Ainda que ele fosse meu vizinho desde os cinco anos, não fora andando na rua que nós havíamos nos conhecido – mas ali, naquele balanço agora descolorido, que eu me sentara. Aquele lugar fora o palco de inúmeras pequenas brigas entre nós – e iguais conciliações -, de trabalhos escolares – que geralmente acabavam sendo feitos em casa, no domingo à noite, às pressas – e fora o lugar em que ele me consolara quando eu havia falado da doença da minha mãe.

- Oi.

Eu não me virei automaticamente. A voz de Gabriel era a segunda voz que eu mais conhecia no mundo – de uma forma, ele também era família. Esperei até que ele se sentasse ao meu lado e, como se executássemos um movimento de dança, deixamos o vento forte nos balançar.

- Oi – respondi, enfim.

- Como você está? – ele perguntou, com um suspiro, como se já soubesse a resposta. Eu queria dizer que estava bem, como dissera as outras pessoas que haviam ligado para saber da situação de minha mãe, mas nossos olhares se encontraram e eu soube que não poderia mentir. Não para ele.

- Péssima – respondi, trêmula, o negror envolvendo meu coração, e ele saltou do balanço, parando à minha frente. O balanço bateu em seu joelho, o que imaginei ter doído, mas ele sequer fez uma careta. A expressão de concentração não deixava seu rosto. Com cuidado, ele retirou o cabelo da frente do meu rosto. Seu toque era quente como sempre, alheio ao tempo frio que fazia.

- Você parece péssima – ele concordou, quando ergui o rosto para fitá-lo. Em comparação à face rosada dele e o brilho nos olhos verdes, eu devia realmente parecer horrível. – Essa é a parte em que eu deveria te chamar para ir à sorveteria, e te faria sorrir.

- Mas... – adivinhei.

Ele passou a mão novamente pela minha face, embora dessa vez eu soubesse que não havia cabelo para retirar.

- Mas, você me conhece, eu nunca faço um convite que sei que será recusado. – Ele segurou minha mão, sério. – Então, se eu te chamar para ir tomar sorvete, para ir ficar feliz, você irá se permitir isso?

Fitei-o, o coração martelando na garganta. Ele esperou, como eu já imaginava que ele iria – e, então, nada mudou – e, ao mesmo tempo, tudo parecia diferente. Ele continuava esperando, mas eu me sentia mais leve; talvez fosse o fato de que o sol aparecera entre as nuvens e iluminara a região da cidade em que estávamos, ou o vento que ficou mais fresco, ou os pássaros que cantavam. Olhei no relógio – duas horas ainda, tão cedo – e pulei do balanço, sorrindo timidamente.

- Eu irei – jurei, e de mãos dadas nós saímos do parque, deixando o hospital para trás.

Nós estávamos no final do nosso segundo sundae de chocolate quando me lembrei da hora. Fitei o céu pela janela da sorveteria e franzi a testa. O céu se tingira de um avermelhado; as nuvens haviam se dissipado há muito tempo. Não caíra uma gota de chuva a tarde inteira.

- Você tem que ir – Gabriel adivinhou, o olhar meio triste traindo a voz sem pesar. Acenei, sem dizer nada, e fiquei brincando com o restante do sorvete no fundo do copo. – Pode me ligar se quiser.

- Eu sei – murmurei, sorrindo, porque eu não havia duvidado disso.

- Então por que não me ligou? – ele perguntou, meio severo.

- Eu não quis... – comecei, mas ele me interrompeu, colocando dois dedos sobre os meus lábios.

- Não quero que você saiba que pode contar comigo – ele respondeu, suave. – Quero estar lá por você.

E deslizou os dedos sobre a minha boca. Corei e abaixei a cabeça. Ele retirou a mão e se levantou. Pagamos a conta e ficamos ali parados na porta da sorveteria, o ar da noite à nossa volta.

- Eu me diverti essa noite, Gabe – sussurrei. Ele franziu a testa ao ouvir o apelido, mas o sorriso em sua face era genuíno. – Obrigada – acrescentei, e me aproximei dele para beijá-lo na face.

Mas não me afastei depois disso. Só continuei parada em frente a ele, nossos rostos a centímetros de distância, ignorando tudo ao nosso redor.

Ele piscou, uma descrença brilhando nos seus olhos quando ergueu as mãos e segurou meu rosto.

- Você está tentando me beijar? – ele perguntou, honestamente surpreso. Corei mais uma vez, mas não desviei o olhar. – Eu não quero te beijar – ele acrescentou, e o choque me manteve estática enquanto ele se separava de mim e me puxava pela mão.

Nós corremos de volta pelos três quarteirões e cinco faróis até chegarmos de volta ao nosso parque. Ali, ele parou sob a luz de uma poste e voltou a segurar meu rosto entre suas mãos, com todo o carinho.

- Tinha que ser aqui – ele murmurou, e sorri, concordando. Fazia sentido. – Francamente – Gabriel acrescentou, mais para si mesmo, quando só havia milímetros de distância entre nossas faces. – Achei que isso nunca iria acontecer.

E pressionou seus lábios contra os meus.

O hospital estava quieto naquele início de noite. Ao meu lado no elevador, sua mão me segurando pela cintura, Gabriel murmurava baixinho uma música; quando nossos olhares se encontravam, nós sorríamos, cúmplices.

De alguma forma, eu estava feliz – e infinitamente mais leve do que quando saíra do hospital há cinco horas.

As portas do elevador se abriram no décimo nono andar e nós saímos. Estava tudo quieto a nossa volta – mas, quando um dos médicos me viu, ele saiu em minha direção, o rosto sério.

E então eu entendi. Não precisava ouvir sua explicação sobre não ter me encontrado – eu nunca pegara o celular de volta – ou sobre como complicações inesperadas de cirurgias ocorriam, ou sobre como fora rápido e indolor.

Mas ele me disse que ocorrera às duas horas da tarde, em ponto, e pensei na forma como o tempo se abrira naquela instante no parque. Pensei em como aquele peso no coração havia simplesmente esvaecido – de alguma forma, eu previra que o pior aconteceria -, e entendi que não era uma opressão – e sim um vazio. Como se meu corpo lamentasse antes de mim – e, então, o vazio fora preenchido – porque minha mãe nunca realmente me abandonaria. Minha alma continuava intacta, de certa forma.

E, pensei, enquanto as lágrimas escorriam livres pelo meu rosto, e Gabriel me abraçava, tentando me confortar, eu não estava só. Gabriel estava lá por mim e minha mãe estava além disso – ela estava em mim.