2010/04/18

Lady Laura

Nota: Eu nunca ouvi a música do Roberto Carlos sobre sua mãe. E critico um pouco a mídia por dar tanta ênfase no falecimento dela - não porque ela não mereça, mas porque tantas mães morrem e tantos filhos ficam órfãos.

A morte é lamentável. E natural. E, como eu li em um livro, a morte é o fim de uma canção, mas não o de todas, e sempre há o começo de uma canção em algum lugar.

Outra nota: Eu não consegui reler isso para poder corrigir qualquer erro de português. Se alguém ler, notar, e quiser me apontar, só comentar.

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Lady Laura


- Eu não quero te deixar - eu disse, em uma voz cansada, fitando o rosto dela. Minha mãe sorriu para mim, daquele jeito condescendente que fez eu me sentir uma garotinha de cinco anos, correndo até ela com medo dos trovões.

- Estou bem – ela garantiu, encostando-se aos travesseiros fofos atrás dela; com o movimento, sua nova cicatriz no abdome ficou à mostra. Tentei evitar o arrepio ao me lembrar daquelas quinze horas intermináveis de cirurgia. – Você deveria sair um pouco.

Como se fosse um sinal, o meu celular em cima da mesa-de-cabeceira dela tocou uma vez. Nova mensagem.

- Gabriel – falei, e aquilo já era uma espécie de explicação, porque o sorriso de minha mãe só aumentou.

- Que horas ele marcou de encontrar com você?

- Duas – respondi distraidamente, meus dedos praticados já voando pelo teclado. – Vou dizer a ele que não vou...

Com um movimento muito mais ágil do que se esperaria de uma senhora de 47 anos que acabara de sair de uma cirurgia, minha mãe se levantou e tomou o celular de mim.

- O que está fazendo? – perguntei, confusa, enquanto a via digitar uma mensagem.

- Estou dizendo a ele que você vai sair daqui e vai encontrá-lo – ela respondeu firmemente. – Você já ficou tempo demais comigo.

- Não é verdade... – tentei, em uma voz tímida que sumiu quando nossos olhares se encontraram. Eu não queria deixá-la. Desde que meu pai falecera logo na minha infância, minha mãe era tudo que eu tinha – ela era família em todo o sentido da palavra. Ela era aquela me ensinara a dirigir, ou me levava para passear na praia quando eu havia brigado com uma amiga, ou podia passar horas me ouvindo falar dos garotos que eu gostara – insistindo, sempre, que eu deveria abrir os olhos para Gabriel.

Porém, eu estava cansada – absurdamente exausta; não pregara o olho a noite inteira, esperando minha mãe voltar da cirurgia – que havia demorado mais tempo do que o médico previra. Além disso, havia aquela sensação de opressão no peito. Fora quase insuportável a espera, sozinha, naquele quarto fechado do décimo nono andar do hospital – eu quase chegara a ligar para Gabriel lá para as quatro da manhã, mas hesitara – não porque eu achasse que ele fosse ficar irritado, mas porque eu sabia, apenas sabia, que aquele aperto não passaria até que eu a visse sã e salva.

Não que eu tivesse acertado totalmente – minha mãe aparecera às oito horas da manhã, sonolenta, mas risonha, e eu havia respirado verdadeiramente pela primeira vez em horas. Mas havia aquela sombra me perseguindo, sempre à espreita – lembrava-me aqueles instantes antes da chuva, quando se sentia o cheiro da terra e a pressão no ar, e via-se o cinza no céu mais escuro que nunca – e então simplesmente sabia-se que ia chover.

Como se para zombar de mim, um trovão ecoou lá fora.

- Vá antes que chova – minha mãe recomendou. Olhei-a com ternura. Ela sempre tentava me proteger de tudo e, ao mesmo tempo, insistia que eu deveria ter aventuras. Imaginei como deveria ser complicado ser uma mãe – estar sempre dividida entre o medo de que algo aconteça e o medo de que algo não aconteça. Não era fácil a vida dela, e não devia ter sido nem um pouco nos últimos anos. Mas ali ela estava, se recuperando da cirurgia, um sorriso no seu rosto que me lembrava aqueles que ela desenhava no rosto do sol.

Acenei, suspirando, e fui até ela. Acariciei os cabelos claros – mas não brancos, ela se orgulhava – e a beijei na testa.

- Eu te amo, mãe - murmurei. – Volto logo.

- Eu te amo – ela respondeu, fechando os olhos e voltando a se apoiar nos travesseiros. Olhei-a antes de fechar a porta de seu quarto. – Vai ficar tudo bem – ela prometeu, calma, como se soubesse que eu a fitava, como se soubesse que aquela pressão no meu peito não se fora.

Estava ventando e o sol estava escondido atrás das nuvens acinzentadas. Apertei meu casaco contra o corpo e me encaminhei para o parque que era, de certo modo, o meu lugar com Gabriel. Ainda que ele fosse meu vizinho desde os cinco anos, não fora andando na rua que nós havíamos nos conhecido – mas ali, naquele balanço agora descolorido, que eu me sentara. Aquele lugar fora o palco de inúmeras pequenas brigas entre nós – e iguais conciliações -, de trabalhos escolares – que geralmente acabavam sendo feitos em casa, no domingo à noite, às pressas – e fora o lugar em que ele me consolara quando eu havia falado da doença da minha mãe.

- Oi.

Eu não me virei automaticamente. A voz de Gabriel era a segunda voz que eu mais conhecia no mundo – de uma forma, ele também era família. Esperei até que ele se sentasse ao meu lado e, como se executássemos um movimento de dança, deixamos o vento forte nos balançar.

- Oi – respondi, enfim.

- Como você está? – ele perguntou, com um suspiro, como se já soubesse a resposta. Eu queria dizer que estava bem, como dissera as outras pessoas que haviam ligado para saber da situação de minha mãe, mas nossos olhares se encontraram e eu soube que não poderia mentir. Não para ele.

- Péssima – respondi, trêmula, o negror envolvendo meu coração, e ele saltou do balanço, parando à minha frente. O balanço bateu em seu joelho, o que imaginei ter doído, mas ele sequer fez uma careta. A expressão de concentração não deixava seu rosto. Com cuidado, ele retirou o cabelo da frente do meu rosto. Seu toque era quente como sempre, alheio ao tempo frio que fazia.

- Você parece péssima – ele concordou, quando ergui o rosto para fitá-lo. Em comparação à face rosada dele e o brilho nos olhos verdes, eu devia realmente parecer horrível. – Essa é a parte em que eu deveria te chamar para ir à sorveteria, e te faria sorrir.

- Mas... – adivinhei.

Ele passou a mão novamente pela minha face, embora dessa vez eu soubesse que não havia cabelo para retirar.

- Mas, você me conhece, eu nunca faço um convite que sei que será recusado. – Ele segurou minha mão, sério. – Então, se eu te chamar para ir tomar sorvete, para ir ficar feliz, você irá se permitir isso?

Fitei-o, o coração martelando na garganta. Ele esperou, como eu já imaginava que ele iria – e, então, nada mudou – e, ao mesmo tempo, tudo parecia diferente. Ele continuava esperando, mas eu me sentia mais leve; talvez fosse o fato de que o sol aparecera entre as nuvens e iluminara a região da cidade em que estávamos, ou o vento que ficou mais fresco, ou os pássaros que cantavam. Olhei no relógio – duas horas ainda, tão cedo – e pulei do balanço, sorrindo timidamente.

- Eu irei – jurei, e de mãos dadas nós saímos do parque, deixando o hospital para trás.

Nós estávamos no final do nosso segundo sundae de chocolate quando me lembrei da hora. Fitei o céu pela janela da sorveteria e franzi a testa. O céu se tingira de um avermelhado; as nuvens haviam se dissipado há muito tempo. Não caíra uma gota de chuva a tarde inteira.

- Você tem que ir – Gabriel adivinhou, o olhar meio triste traindo a voz sem pesar. Acenei, sem dizer nada, e fiquei brincando com o restante do sorvete no fundo do copo. – Pode me ligar se quiser.

- Eu sei – murmurei, sorrindo, porque eu não havia duvidado disso.

- Então por que não me ligou? – ele perguntou, meio severo.

- Eu não quis... – comecei, mas ele me interrompeu, colocando dois dedos sobre os meus lábios.

- Não quero que você saiba que pode contar comigo – ele respondeu, suave. – Quero estar lá por você.

E deslizou os dedos sobre a minha boca. Corei e abaixei a cabeça. Ele retirou a mão e se levantou. Pagamos a conta e ficamos ali parados na porta da sorveteria, o ar da noite à nossa volta.

- Eu me diverti essa noite, Gabe – sussurrei. Ele franziu a testa ao ouvir o apelido, mas o sorriso em sua face era genuíno. – Obrigada – acrescentei, e me aproximei dele para beijá-lo na face.

Mas não me afastei depois disso. Só continuei parada em frente a ele, nossos rostos a centímetros de distância, ignorando tudo ao nosso redor.

Ele piscou, uma descrença brilhando nos seus olhos quando ergueu as mãos e segurou meu rosto.

- Você está tentando me beijar? – ele perguntou, honestamente surpreso. Corei mais uma vez, mas não desviei o olhar. – Eu não quero te beijar – ele acrescentou, e o choque me manteve estática enquanto ele se separava de mim e me puxava pela mão.

Nós corremos de volta pelos três quarteirões e cinco faróis até chegarmos de volta ao nosso parque. Ali, ele parou sob a luz de uma poste e voltou a segurar meu rosto entre suas mãos, com todo o carinho.

- Tinha que ser aqui – ele murmurou, e sorri, concordando. Fazia sentido. – Francamente – Gabriel acrescentou, mais para si mesmo, quando só havia milímetros de distância entre nossas faces. – Achei que isso nunca iria acontecer.

E pressionou seus lábios contra os meus.

O hospital estava quieto naquele início de noite. Ao meu lado no elevador, sua mão me segurando pela cintura, Gabriel murmurava baixinho uma música; quando nossos olhares se encontravam, nós sorríamos, cúmplices.

De alguma forma, eu estava feliz – e infinitamente mais leve do que quando saíra do hospital há cinco horas.

As portas do elevador se abriram no décimo nono andar e nós saímos. Estava tudo quieto a nossa volta – mas, quando um dos médicos me viu, ele saiu em minha direção, o rosto sério.

E então eu entendi. Não precisava ouvir sua explicação sobre não ter me encontrado – eu nunca pegara o celular de volta – ou sobre como complicações inesperadas de cirurgias ocorriam, ou sobre como fora rápido e indolor.

Mas ele me disse que ocorrera às duas horas da tarde, em ponto, e pensei na forma como o tempo se abrira naquela instante no parque. Pensei em como aquele peso no coração havia simplesmente esvaecido – de alguma forma, eu previra que o pior aconteceria -, e entendi que não era uma opressão – e sim um vazio. Como se meu corpo lamentasse antes de mim – e, então, o vazio fora preenchido – porque minha mãe nunca realmente me abandonaria. Minha alma continuava intacta, de certa forma.

E, pensei, enquanto as lágrimas escorriam livres pelo meu rosto, e Gabriel me abraçava, tentando me confortar, eu não estava só. Gabriel estava lá por mim e minha mãe estava além disso – ela estava em mim.

Um comentário:

  1. Que texto lindo, Má! Curto, mas tão cheio de emoções.

    Adorei muito essa parte: "Mas havia aquela sombra me perseguindo, sempre à espreita – lembrava-me aqueles instantes antes da chuva, quando se sentia o cheiro da terra e a pressão no ar, e via-se o cinza no céu mais escuro que nunca – e então simplesmente sabia-se que ia chover." Foi muito bem escrita e formou uma ótima imagem.

    Também gostei do romance,mesmo não sendo a parte principal - na minha percepção, ele foi bem encaixado na história!

    Vou terminando por aqui, antes que esse comentário fique quilométrico, haha.

    Beijos.

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